Augusto Cury na Rocinha: quando uma visita eleitoral levanta uma pergunta incômoda


Por Fred Boechat | O Progresso

 A passagem do candidato à Presidência da República Augusto Cury pela Rocinha, em 29 de agosto, poderia ser apresentada apenas como mais uma agenda de campanha em uma das maiores comunidades do país. O problema é que os próprios relatos que vieram ao público colocam a visita em uma zona politicamente muito mais delicada: para chegar à comunidade, Cury precisou de uma articulação prévia e de uma autorização que, segundo as declarações divulgadas, parti de lideranças locais.

A reportagem do Metrópoles mostra que a ponte foi feita por MC Doca, integrante do Avante e autor do jingle da campanha de Cury. Segundo Doca, o presidente nacional do partido, deputado Luís Tibé, pediu sua ajuda para levar o candidato às comunidades. Ele então articulou a entrada na Rocinha com representantes da associação de moradores. A própria Doca afirmou: “Nós organizamos e subimos tudo na Rocinha”.


A versão apresentada por Cury na sabatina da Jovem Pan acrescenta um elemento ainda mais sensível. Questionado sobre a necessidade de autorização para entrar na Rocinha, o candidato respondeu que “eles pediram” e relatos que deveriam ter sido ditos que sua entrada deveria ser liberada porque ele seria “o único” que ajudaria aquelas pessoas por meio de seus livros. Cury também afirmou que soube posteriormente que seus livros eram lidos por pessoas presas.

É preciso fazer uma distinção fundamental: não há, nas informações publicadas até agora, prova de que Augusto Cury tenha negociado diretamente com uma facção criminosa ou de que tenha feito qualquer acordo com traficantes. Transformar uma autorização de lideranças comunitárias em prova automática de conclusão de crime seria irresponsável e jornalisticamente envolvente. 

Mas isso não elimina a questão política. Muito pelo contrário. Se um candidato à Presidência precisa de uma autorização para cumprir uma agenda eleitoral dentro de uma comunidade submetida à influência territorial do crime organizado, a situação merece explicações públicas muito mais solicitadas. A Rocinha aparece em investigações policiais recentes relacionadas ao Comando Vermelho. O Ministério Público do Rio, por exemplo, já parcerias de grupos ligados à facção sedada na comunidade com outras estruturas criminosas.

E esse é justamente o ponto que não pode ser escondido atrás de uma fotografia produzida para as redes sociais. A visita de Cury foi acompanhada de produção de conteúdo, inclusive a chamada “tendência do drone”, mostrando o candidato em uma laje com a Rocinha ao fundo. Segundo o Metrópoles, a passagem pela comunidade teve como objetivo justamente a gravação de conteúdos para as redes sociais.

Há, portanto, uma questão legítima a ser respondida: quem autorizou efetivamente a entrada do candidato? Quem intermediou a autorização? Com quem a equipe de campanha conversou? Houve alguma negociação política ou financeira? Quais lideranças participaram da articulação? E, sobretudo, a campanha tinha conhecimento de quem efetivamente exerce o poder territorial no local?

Não se pode tratar a Rocinha como mero cenário eleitoral. Ali vivem milhares de brasileiros que não podem ser confundidos com traficantes e que não escolheram viver sob a influência de estruturas criminosas. Transformar uma comunidade inteira em pano de fundo para uma peça de marketing político também merece crítica. Favela não é parque temático decorativo. 

O episódio também expõe uma contradição incômoda para quem pretende ocupar o Palácio do Planalto. Uma candidatura presidencial deveria defender que nenhum cidadão — e muito menos um candidato — precisa pedir autorização a estruturas paralelas de poder para circular pelo território nacional. Se esta autorização é necessária, isso revela com justiça o fracasso do Estado em garantir a soberania territorial e a liberdade de circulação.

Por isso, uma crítica a Cury deve ser contundente, mas responsável: o problema não é ter ido à Rocinha; o problema é transformar uma visita que envolve autorização e intermediação local em peça de propaganda sem esclarecer quem autorizou, em nome de quem e sob quais situações. Até que essas perguntas sejam respondidas, qualquer tentativa de vender a visita simplesmente como uma demonstração de proximidade com a população corre o risco de parecer oportunismo eleitoral.

E há uma ironia particularmente forte nessa história. Augusto Cury construiu sua imagem pública em torno de temas como educação, comportamento e desenvolvimento humano. Agora, ao buscar uma fotografia eleitoral em uma comunidade marcada pela disputa entre o poder público e o crime organizado, ele deveria demonstrar que entende a gravidade institucional da situação — e não apenas aproveitar a estética da favela para produzir engajamento.

A candidatura presidencial exige mais que uma boa fotografia, um jingle popular ou uma visita capaz de viralizar. Exige transparência. Cury precisa explicar, sem rodeios, quem autorizou sua entrada na Rocinha e por que essa autorização foi necessária. Porque, em uma democracia, o candidato à Presidência não deveria depender da chance de poderes paralelos para fazer campanha em território brasileiro.

E, embora não haja evidência de negociação com facções, não se deve afirmar que houve “coligação” ou acordo criminoso. Mas também não se deve tratar como normal que uma campanha presidencial tenha de recorrer a intermediários para obter autorização de entrada em uma comunidade onde há histórico documentado de atuação do crime organizado. Essa é a pergunta que fica — e que Cury precisa responder.

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