A “Suíça Americana” está derretendo: presidente paraguaio renuncia em meio à crise financeira e política

Paraíso prometido aos brasileiros de direita enfrentar uma crise bancária, protestos populares e uma turbulência institucional. Parece que a propaganda imobiliária esqueceu de incluir os riscos no pacote.

 O Paraguai, vendido por uma parcela da direita brasileira como uma espécie de “Suíça Americana”, acaba de ganhar um capítulo bastante indigesto em sua história política. O presidente Santiago Peña anunciou sua renúncia nesta quinta-feira (5), em meio a uma grave crise financeira e política provocada pelo colapso do banco digital Ueno. O pedido foi encaminhado ao Congresso paraguaio, que precisa aprovar a saída. A notícia representa mais um duro golpe na imagem de estabilidade que setores conservadores tentam vender sobre o país.

O objetivo foi a intervenção do Banco Central do Paraguai em Ueno, uma instituição financeira que atende aproximadamente 3 milhões de clientes, quase metade da população do país. A instituição apresentou um grave problema de solvência, com seu capital caindo abaixo do mínimo legal. Milhões de correntistas ficaram sem acesso ao próprio dinheiro, incluindo pessoas que dependiam de suas economias e recursos previdenciários. Uma verdadeira demonstração de que bandeira ideológica não serve como garantia bancária.

A situação ficou ainda mais constrangedora porque Peña tinha ligações corporativas com o grupo controlador do banco, do qual era acionista até março de 2025. A oposição passou a acusar o presidente de conflito de interesses, irregularidades na utilização de recursos previdenciários e tentativa de encobrimento institucional. O escândalo gerou protestos, pedidos de impeachment e uma debandada de aliados políticos. Executivos da Oito foram detidos e 27 pessoas foram formalmente acusadas.

A renúncia de Peña também tem um componente político que merece atenção: ele perdeu o apoio de membros do próprio Partido Colorado, de orientação conservadora, e até de figuras influentes da legenda. O vice-presidente Pedro Alliana deverá assumir o comando do país. O presidente que chegou ao poder em 2023 com discurso de estabilidade e alinhamento à direita deixa o governo justamente sob uma tempestade provocada por suspeitas de favorecimento, fragilidade na fiscalização financeira e desconfiança popular.

E é justamente aí que a história fica particularmente interessante para os brasileiros que transformaram o Paraguai em destino dos sonhos. Nos últimos meses, o país passou a ser promovido nas redes sociais como uma espécie de refúgio para quem não apoia mais o Brasil governado pela esquerda. Impostos menores, discurso de liberdade econômica, governo conservador e promessas de incertezas mudaram argumentos para convencer seguidores a fazer as malas. Segundo reportagem do UOL publicada em maio, o Paraguai recebeu 18.071 pedidos de residência de estrangeiros apenas no primeiro trimestre de 2026, um crescimento de 85% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Nas redes sociais, a propaganda é quase cinematográfica: empresários prosperando, imóveis baratos, impostos reduzidos e uma vida comprovada livre das amarras do Estado. Para algumas idéias da direita brasileira, o Paraguai seria a materialização de tudo aquilo que desejam: um país conservador, com pouca tributação e mínima intervenção estatal. Só esqueci de combinar com a realidade que, aparentemente, não acompanha os vídeos motivacionais dos influenciadores. Afinal, de que adiantamentos de impostos baixos quando uma crise bancária deixa milhões de pessoas sem acesso às próprias economias? A Suíça, pelo menos, não costuma oferecer esse tipo de experiência turística.

É importante dizer que a crise do Ueno não significa que todo o sistema financeiro paraguaio esteja desmoronado ou que o país esteja em colapso econômico generalizado. As autoridades afirmam que estão trabalhando para proteger os depositantes e preservar a estabilidade bancária. Mas o episódio expõe fragilidades institucionais, suspeitas de conflitos de interesses e problemas de fiscalização que não combinam muito com a imagem do paraíso econômico vendido aos brasileiros. A realidade é que nenhum país é imune à corrupção, à irresponsabilidade financeira ou aos interesses das suas elites.

No fim das contas, fica uma lição para os brasileiros que sonham em abandonar o país em busca de uma suposta utopia ideológica: trocar de endereço não significa trocar os problemas humanos por um cenário de propaganda. O Paraguai tem suas oportunidades, suas vantagens econômicas e uma população que merece respeito, mas não é a Suíça, não é um paraíso fiscal livre de riscos e muito menos uma terra prometida onde uma política funciona por milagre. Para quem já estava com as malas prontas, talvez seja prudente acrescentar um item à lista de mudança: um bom plano de contingência. Porque fugir do Brasil por causa da política e encontrar uma crise política e bancária na nova morada é uma ironia que nem o melhor roteirista conseguiria escrever. Afinal, a tão sonhada Suíça Americana parece estar descobrindo que também tem seus dias de América Latina.

Fontes: UOL, Reuters e Associated Press.

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