Que Deus? Que pátria? Que família? Flávio Bolsonaro é uma fake news ambulante
| No domingo, os eleitores, como esses senhores, poderão fazer uma sessão de exorcismo – Imagem: Redes Sociais |
Em meio à guerra santa que ameaça
o posto de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, Flávio Bolsonaro,
sem esconder o constrangimento, ergueu uma santa de crochê à maneira de um
capitão de time de várzea que empunha uma taça de latão. Caso Robin, o parceiro
do Batman naquele seriado de tevê dos anos 60 do século passado, assistisse a
esse momento de devoção, não titubearia: “Santa hipocrisia”.
A controvérsia em torno da patrona, da imagem negra recolhida de um rio por pescadores, não deixou de produzir um milagre. O esforço do chamado jornalismo profissional em provar que alguns fatos compunham uma fake news, a ponto de colocar em dúvida o trabalho de uma das mais competentes jornalistas, Maria Cristina Fernandes, se assemelha a um épico bíblico. A água se converteu em vinho.
Lembremos os fatos: a jornalista apenas, e tão somente, informou o incômodo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil com uma ala evangélica ligada umbilicalmente ao senador que defende o “rebaixamento” da santa.
Como se sabe, os protestantes sempre criticaram a adoração de imagens. A preocupação da CNBB tem razão de ser. Desde 2018, aponta um relatório da Comissão de Justiça e Paz, foram registrados 58 episódios de ataques a católicos. Victório Galli, ex-deputado e ex-assessor da Presidência da República no governo de Jair Bolsonaro, propôs um projeto, rejeitado na Câmara, para mudar o status de Nossa Senhora para “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.
O pastor JB Carvalho, responsável pelo batismo
de Flávio Bolsonaro, considera inconstitucional o título da santa estabelecido
por uma lei de 1980. E o presidenciável afirmou que, na eventualidade de ser
eleito, decretará, como primeiro ato, “que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”
(supomos que o segundo será assinar a anistia ao pai, condenado por tentativa
de golpe).
Em geral, onde há fumaça há fogo, mas os meios de comunicação, em uma cruzada, se empenharam em desqualificar esse conjunto de evidências por meio de editoriais, artigos e “reportagens”. Faltam registros de veemência semelhante quando mentiras comprovadas – e não análises plausíveis − contra candidatos progressistas, de qualquer época, influíram na dinâmica eleitoral. Mais. Não foram raros os momentos em que a mídia foi o centro irradiador ou a caixa de ressonância da desinformação. Mas nunca é tarde para a remissão dos pecados.
Apesar da condescendência, Flávio
Bolsonaro não passa de uma caricatura. O carola no expediente comercial vira um
endiabrado entre quatro paredes, conforme as revelações de Alexandre Santini,
seu ex-sócio na fantástica loja de chocolates, a mais lucrativa franquia da
Kopenhagen, especializada em movimentar dinheiro vivo. Diante das “encomendas”
– e nem vieram à tona detalhes das festas de Daniel Vorcaro em Trancoso −,
pode-se dizer que o presidenciável tem um conceito amplo de família. Sempre
cabe mais uma.
O filho 01 encarna, por fim, um
paradoxo consolidado sob a égide do bolsonarismo: o patriota entreguista.
Flávio não concorre ao cargo de presidente do Brasil. Sua ambição, captada pela
foto da visita à Casa Branca, é arrumar um bico de mordomo de Trump.
No domingo 4, os eleitores terão a chance de afastar a tentação.
Fonte: Editorial Carta Capital -
https://www.cartacapital.com.br/editorial/que-deus-que-patria-que-familia/



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