O Brasil que não votou pode decidir quem vai governar o Brasil
Por Fred Boechat | O Progresso
A eleição presidencial deste domingo deixou uma mensagem que não pode ser ignorada: Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno na frente de Lula, mas uma parcela gigantesca do Brasil simplesmente não apareceu para votar . E talvez seja justamente a chave para entender — e aí mudar eventualmente — o resultado que saiu das urnas. Enquanto os candidatos contabilizam seus milhões de votos, existe um verdadeiro “terceiro eleitorado” formado por brasileiros que chegaram às urnas.
Estamos falando de quase um quarto do eleitorado . Gente que, por diferentes motivos, não votou. São milhões de brasileiros que ficaram fora da fotografia oficial da eleição, mas que podem voltar a ser protagonistas no segundo turno. E é preciso dizer com todas as letras: esse contingente não é propriedade eleitoral de Lula. Não existe nenhuma série matemática que permita transformar abstencionistas em votos petistas automaticamente. Mas também seria engenhosidade política ignorando o tamanho desse eleito.
Para Lula, essa massa silenciosa pode representar a principal oportunidade de reverter a vantagem construída por Flávio Bolsonaro . A tarefa, entretanto, não será simples. O presidente terá de convencer milhões de pessoas que desistiram de votar de que, desta vez, vale a pena sair de casa. Terá de transformar o desânimo em participação, a indiferença em consciência e a ausência em voto. Porque esperar apenas pela transferência dos votos dos candidatos derrotados pode não ser suficiente.
E aqui está o ponto que merece atenção: uma eleição não é decidida apenas por quem vota. Ela também é influenciada por quem não vota.Quando dezenas de milhões de brasileiros deixam de comparecer às urnas, o resultado passa a refletir exclusivamente aqueles que desejaram, quiseram ou decidiram participar desse processo. A democracia continua funcionando, evidentemente, mas uma parcela enorme da sociedade deixa de interferir diretamente na escolha que determinará os rumores do país.
A observação da abstenção também precisa ser analisada para além da velha explicação de que “o brasileiro não gosta de política”. Há dificuldades de transporte, questões econômicas, distância dos locais de votação, desinformação, problemas de mobilidade, desânimo e uma sensação de perigo de que “tanto faz”. E esse “tanto faz” pode custar caro. Em uma eleição eleitoral, deixar de votar também é uma escolha — ainda que seja uma escolha pela ausência.
É nesse terreno que Lula terá de jogar suas fichas. Se pretende virar o jogo, a campanha petista precisará fazer algo que vai muito além de pedir votos aos adversários derrotados. Precisará ir atrás de quem não votou . Precisará falar com o trabalhador que não conseguiu chegar à seção eleitoral, com o eleitor que desistiu da política, com aquele que acreditou que a eleição já estava decidida e com quem simplesmente não encontrou motivação para enfrentar a urna no primeiro turno.
Flávio Bolsonaro, evidentemente, sabe que essa conta existe. Sua campanha terá de trabalhar para preservar a vantagem conquistada e, ao mesmo tempo, ampliar sua votação. Afinal, se Lula conseguir aumentar significativamente sua capacidade de mobilização enquanto o eleitorado de Flávio permanecer praticamente estável, a diferença do primeiro turno pode evaporar. O segundo turno começa do zero no aspecto jurídico, mas não começa do zero na matemática eleitoral.
É por isso que a próxima batalha presidencial não será travada apenas nos programas eleitorais, nos debates ou nas redes sociais. Ela será travada nas ruas, nas famílias, nos locais de trabalho, nas comunidades e nas conversas cotidianas. Será uma batalha pela mobilização. E, nesse aspecto, o maior eleitorado disponível talvez seja justamente aquele que não apareceu para votar.
A conta é simples, embora politicamente complexa: Lula precisa buscar votos novos sem perder os que já tem; Flávio precisa preservar sua base e ampliar sua vantagem. No meio desse confronto estão milhões de brasileiros que ainda não disseram, através das urnas, quem quer governar o país. Não se trata de afirmar que todos votarão em Lula — seria irresponsável dizer isso. Trata-se de considerar que uma participação maior pode redesenhar completamente a disputa.
O primeiro turno acabou. A eleição, porém, está longe de acabar. Flávio Bolsonaro saiu na frente, e Lula terá de correr atrás. Mas existe uma parcela gigantesca do país que ainda pode alterar essa corrida. Se o campo progressista conseguir conscientizar e mobilizar uma parte expressiva dos abstencionistas, poderá transformar uma derrota parcial em uma virada. Se não conseguir, a vantagem conquistada pelo bolsonarismo poderá se tornar muito mais difícil de ser desmontada. No segundo turno, portanto, talvez a pergunta mais importante não seja quem já votou em Lula ou Flávio. É quantos aqueles que não votaram estarão satisfeitos com a saída de casa para decidir o futuro do Brasil.



Comentários
Postar um comentário