Lula parte para cima das bets a nove dias do 1º turno — e a imprensa patrocinada pelas apostas terá de se explicar

Por Fred Boechat | O Progresso

A nove dias do primeiro turno das eleições presidenciais, o governo Lula anunciou uma medida provisória para proibir as chamadas bets e os cassinos digitais no Brasil. O anúncio ocorreu nesta sexta-feira (25), em São Paulo, depois de semanas de discussão dentro do governo. A proposta de análise prevê aplicação imediata, embora seu alcance exato tenha sido objeto de discussão até as horas que antecederam o anúncio.

A operação contra as plataformas de apostas não surgiu do nada. Nas últimas semanas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem intensificando as críticas ao setor, associando a expansão das apostas ao endividamento das famílias e aos impactos sociais provocados pelo jogo compulsivo. Em discurso na Assembleia-Geral da ONU, Lula voltou a atacar o modelo de negócios das apostas e defendeu medidas mais duras contra as plataformas.

O governo também vem ampliando os mecanismos de combate ao mercado ilegal. Em setembro, a Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda publicou uma portaria que fortalece a identificação de transações relacionadas a operações irregulares, permite o bloqueio de contas e prevê a interrupção do financeiro destinada a atividades ilegais.

Na prática, porém, fechar a porta para as apostas não significa simplesmente apertar um botão. A efetividade da medida depende de uma engenharia que envolve plataformas digitais, instituições financeiras, meios de pagamento, fiscalização e bloqueio de domínios. O próprio sistema financeiro já vem sendo utilizado como uma das frentes de enfrentamento às operações irregulares, enquanto o Banco Central aperfeiçoa mecanismos de segurança e controle do sistema de pagamentos.

E aqui começa uma discussão que interessa — e muito — ao eleitor.

As apostas transformaram a publicidade em uma verdadeira indústria dentro do futebol, da televisão, das redes sociais e de outros segmentos da comunicação. Levantamento citado pela imprensa aponta que as casas de apostas movimentaram cerca de R$ 153 milhões em publicidade somente em agosto de 2026, incluindo comerciais e patrocínios. Emissoras de televisão e programas esportivos estão entre os segmentos que recebem recursos desse mercado.

É justamente por isso que o público precisa separar informações de interesse comercial . Se uma medida do governo atinge uma fonte importante de publicidade de determinado veículo, é absolutamente legítimo que o leitor, o telespectador e o internauta façam uma pergunta simples: a crítica publicada é baseada em fatos verificáveis ​​ou também existe aí o chororô de quem está prestes a perder uma fatia generosa do negócio?

Isso não significa afirmar que toda crítica à medida seja comprada ou que todo veículo patrocinado por apostas esteja agindo de má-fé. Seria irresponsável fazer essa generalização. Significa apenas reconhecer um fato elementar do jornalismo: o dinheiro da publicidade cria interesses econômicos que precisam ser conhecidos pelo público, especialmente quando uma decisão de governo ameaça diretamente um mercado publicitário milionário.

E há um agravante: estamos a apenas nove dias do primeiro turno.

Neste momento, qualquer informação sobre o governo, sobre a oposição ou sobre medidas de grande impacto económico precisa ser prejudicada com lupa. O eleitor não deve acreditar automaticamente nem na propaganda oficial nem na manchete mais indignada do jornal da televisão. Você deve procurar uma medida específica, consultar os documentos, verificar se foi eficaz e comparar diferentes fontes.

Afinal, se uma empresa de comunicação recebe milhões de reais de um determinado setor e, justamente quando esse setor é atingido por uma decisão governamental, passa a produzir uma enxurrada de críticas contra a medida, o público tem todo o direito de perguntar: onde termina o jornalismo e onde começa o interesse comercial?

As apostas, evidentemente, têm o direito de defender seus interesses. As empresas de comunicação também têm o direito de discutir os impactos econômicos da decisão. O que não pode desaparecer no meio dessa disputa é o direito do cidadão à informação transparente.

O debate também precisa escapar da falsa dicotomia entre “ser contra o jogo” e “ser contra o governo”. É perfeitamente possível discutir a legalidade, a liberdade econômica, a arrecadação, os empregos, os contratos publicitários e, ao mesmo tempo, os efeitos sociais das apostas. Uma coisa não elimina a outra.

O ponto central é outro: quem paga a conta quando o negócio das apostas deixa de ser apenas entretenimento e passa a consumir renda familiar, estimular o individualismo e movimentar bilhões em publicidade? E, do outro lado, quem paga a conta quando milhares de famílias deixam de gastar seu dinheiro em apostas?

É uma discussão que merece dados, documentos e jornalismo — não torcida.

O governo Lula pode e deve ser cobrado pelo conteúdo, pela legalidade e pela eficácia da medida. A oposição também deverá apresentar as suas alternativas. E a imprensa tem a obrigação de informar tudo isso com independência.

Mas, às vésperas de uma eleição, o eleitor precisa desconfiar de qualquer narrativa eventualmente — inclusive aquela que chega acompanhada de uma indignação patrocinada.

Porque, no fim das contas, talvez a pergunta mais importante não seja apenas “quem perdeu com o fim das apostas?”

Talvez seja:

“Quem estava ganhando — e quanto — para defender que elas continuassem?”

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