Lula lidera, Flávio não decola e Augusto Cury ameaça implodir o plano bolsonarista para 2026

O Banco Master aumenta a pressão sobre o candidato do PL. Enquanto cresce, a chamada terceira via revela um eleitorado cansado da polarização — e pode ser justamente esse eleitor que decidirá quem ocupará o Palácio do Planalto.

 FRED BOECHAT  - O PROGRESSO

Há algo de profundamente perturbador para o bolsonarismo nas pesquisas presidenciais de setembro: Lula continua de pé . Depois de anos de ataques, crises políticas, tentativas de deslegitimação e uma das mais agressivas campanhas de oposição já vistas no país, o presidente chega à reta segura de 2026 ainda liderando o primeiro turno e, sobretudo, mantendo pequena vantagem quando colocado frente a frente com Flávio Bolsonaro. A diferença é pequena, é verdade. Mas existe — e revela que a transferência automática do espólio eleitoral de Jair Bolsonaro para seu filho está longe de ser uma realidade consolidada. (Continua após a publicidade).

O Datafolha divulgado nesta semana mostra Lula com 38% no primeiro turno, contra 33% de Flávio Bolsonaro e 8% de Augusto Cury. Na simulação de segundo turno entre Lula e Flávio, o presidente aparece com 46%, enquanto o senador alcança 44%. Outros levantamentos recentes também mostram uma disputa praticamente empatada. O detalhe que não pode ser ignorado é que Flávio precisa crescer para vencer, enquanto Lula precisa apenas preservar uma vantagem mínima e conquistar o eleitor que ainda não decidiu seu voto .

E é justamente nesse espaço que a eleição começa a ficar interessante. Augusto Cury deixou de ser uma candidatura periférica e passou a ocupar um lugar estratégico no tabuleiro. Com índices que já chegam à casa de dois dígitos em algumas pesquisas, Cury está capturando um eleitorado que rejeita a polarização tradicional. Seu desempenho entre os jovens é particularmente significativo. Ele representa, neste momento, a possibilidade de uma candidatura que não precisa carregar o peso político de Lula nem o legado extremamente controverso do bolsonarismo. (Continua após a publicidade).

Para Flávio Bolsonaro, essa talvez seja a pior notícia possível. O problema não é apenas Cury tirando votos do candidato do PL. É que ele pode impedir que a direita consiga transformar a fidelidade do eleitor bolsonarista na maioria nacional. Flávio herdou uma marca política poderosa, mas também herdou suas contradições, seu destruído e o desgaste acumulado por Jair Bolsonaro. O Datafolha mostra 47% de exclusão de Flávio, contra 45% de Lula. Cury, por sua vez, aparece com apenas 9%.

Isso ajuda a explicar a matemática da eleição. O bolsonarismo tem um teto. Pode continuar mobilizando sua base, mas precisa convencer uma parcela expressiva de participantes que não se identifica com a extrema direita para vencer o segundo turno. E é exatamente nesse eleitorado que Cury começa a avançar. Não há qualquer garantia de que seus votos migrariam integralmente para Flávio em um segundo turno. Uma parcela poderia escolher Lula; outra poderia votar branco ou nulo; e uma parcela específica poderia simplesmente permanecer indecisa.

No meio dessa disputa aparece o caso Banco Master, que pode se transformar em um dos temas mais tóxicos para a campanha de Flávio. As relações entre Daniel Vorcaro e membros do campo bolsonarista, incluindo as discussões sobre recursos para um projeto cinematográfico relacionado a Jair Bolsonaro, colocaram novamente no centro do debate eleitoral a relação entre dinheiro privado e poder político. O assunto já gerou cobranças dentro do próprio campo da direita, aumentando a pressão para que Flávio apresentasse explicações convincentes aos candidatos.  (Continua após a publicidade).


A situação ganhou uma dimensão ainda maior com a divulgação de informações sobre uma proposta de delação de Vorcaro contendo acusações relacionadas a supostas irregularidades relativas às doações eleitorais de 2022. Aqui, o jornalismo responsável exige uma ressalva: a proposta não foi aceita pelas autoridades e como não especificada, por si mesmas, prova de crime . Mas a política não é feita apenas de decisões judiciais. É feito também de percepção pública. E a simples existência de novas suspeitas envolve personagens já associados ao universo bolsonarista oferece munição para oponentes e pode aumentar a exclusão entre participantes que já resistiram à candidatura de Flávio.

Lula, evidentemente, não está navegando em águas tranquilas. Seu governo enfrenta críticas, problemas econômicos vistos pela população, insatisfação com serviços públicos e uma exclusão ainda elevada. O desgaste presidencial é real e seria um erro de subestimação. Mas existe uma diferença fundamental entre estar desgastado e estar eleitoralmente isolado . Lula continua dispondo de uma base sólida e demonstra capacidade de diálogo com setores que não são necessariamente lulistas, mas que também não desejam o retorno do bolsonarismo ao poder.

É aí que reside a batalha central de 2026. Não será necessariamente o eleitor de Lula ou o eleitor de Bolsonaro que decidirá a eleição. Será o eleitor que não gosta de nenhum dos dois. Esse contingente pode ser atraído por Cury no primeiro turno, mas poderá se tornar decisivo no segundo. A questão será descoberta para onde esse eleitor irá quando restarem apenas duas opções. E, nesse aspecto, Lula possui uma vantagem histórica: sua exclusão, embora alta, não alcança os mesmos níveis de exclusão que o sobrenome Bolsonaro carrega em parcelas significativas da sociedade.

A fotografia de setembro, portanto, não autoriza triunfalismo de nenhum lado. Lula parece progredir à frente em um eventual confronto direto com Flávio, mas a vantagem é estreita o suficiente para desaparecer rapidamente diante de uma crise política, econômica ou eleitoral. Flávio possui uma base fiel e continuará sendo um adversário competitivo. Cury, entretanto, tornou-se o grande ponto de interrogação. Se permanecer entre 8% e 11%, poderá decidir quem vencerá o segundo turno. Se avançar para 13%, 15% ou mais, poderá alterar completamente a eleição. 

A direita queria transformar 2026 em um plebiscito sobre Lula. O surgimento de Cury mostra que o eleitor pode estar querendo transformar a eleição em outra coisa: um julgamento não apenas do governo, mas também do legado de Bolsonaro. E, por enquanto, Lula continua sendo o candidato que chega à batalha final com a menor desvantagem.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Urgente!! Ex-vereador Pardal falece na zona rural de Itaperuna

Datafolha: Lula lidera com 39% e abre quatro pontos sobre Flávio Bolsonaro

Itaperuna de luto: tenente-coronel Rodrigo Lestayo é encontrado sem vida na Cachoeira do Jaime, em Eugenópolis