Itaperuna debateu liberdade religiosa e expôs a urgência de combater o racismo religioso


Por Fred Boechat | O Progresso

Itaperuna abriu espaço nesta terça-feira (15) para um debate que ainda incomoda muita gente, mas que precisa ser enfrentado de frente: a liberdade religiosa e o racismo religioso. Realizada no Auditório Paulo Freire, do SINPRO, no bairro Cidade Nova, a roda de conversa reuniu diferentes tradições religiosas para discutir um problema que não pode ser tratado como simples divergência de opiniões ou diferenças de fé.

Com o tema “Liberdade Religiosa & Direitos”, o encontro colocou em evidência uma contradição que ainda persiste na sociedade brasileira: embora a liberdade de crença seja um direito garantido constitucionalmente, nem todos conseguem exercer sua fé com a mesma tranquilidade e segurança.


Entre os participantes esteve o deputado federal Reimont (PT-RJ), que levou ao debate a dimensão política e institucional da defesa da liberdade religiosa. A discussão passou pelo papel do Estado, pela democracia e pela necessidade de combater práticas discriminatórias que atingem comunidades religiosas e seus espaços de culto.

Representando as religiões de matriz africana, JP das 7 Encruza, Pai de Santo do Canzuá de São Sebastião Flecheiro, e Mãe Michelle, Mãe de Santo do Centro Espírita Pai Luciano das Almas e Cabocla Jurema, trouxeram para o centro da discussão uma realidade que muitas vezes é empurrada para as margens: o racismo religioso que atinge terreiros, sacerdotes, sacerdotisas, praticantes e símbolos das tradições de matriz africana.

E é justamente aí que está uma das questões mais importantes levantadas pelo encontro. Não se trata apenas de defender o direito abstrato de cada pessoa ter uma religião. Trata-se de reconhecer que determinadas manifestações religiosas ainda são alvo de preconceito, violência e demonização por razões que também passam pelo racismo e pela intolerância historicamente construídos no Brasil.


Combater o racismo religioso, portanto, não significa atacar uma religião para defender outra. Significa defender um princípio democrático elementar: ninguém deve ser perseguido, humilhado ou ameaçado por causa da sua fé. O Estado deve garantir direitos, e a sociedade precisa rejeitar discursos e práticas que transformem a diferença religiosa em justificativa para violência ou discriminação.

A roda de conversa realizada em Itaperuna cumpriu, assim, um papel que vai além de um simples evento. Ao colocar representantes de diferentes tradições sentados à mesma mesa, a iniciativa mostrou que o diálogo é possível — e que a defesa da liberdade religiosa precisa ser uma responsabilidade coletiva. Em uma democracia, a fé de um cidadão não pode valer mais do que a fé do outro.


Porque liberdade religiosa não pode ser uma promessa seletiva. Ou vale para todos, ou deixa de ser liberdade. E quando um terreiro é atacado, quando uma tradição religiosa é demonizada ou quando alguém é discriminado por sua crença, não está em jogo apenas o direito daquela pessoa: está em jogo o próprio compromisso da sociedade com a democracia, a diversidade e a dignidade humana.


 

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