A realidade paralela do eleitor de Flávio Bolsonaro

 

Sete em cada dez dos que pretendem votar no candidato do PL sabem das conversas do 01 com Vorcaro

O eleitor de Flávio Bolsonaro (PL) detesta ser chamado de gado. Tem razão: a boiada segue sem saber para onde vai, e a maioria dos partidários do 01 tem consciência da escolha. Sabe que o candidato pediu dinheiro a um banqueiro que acabou preso tentando deixar o País e declarar voto mesmo assim. Escrever sobre Flávio é fácil, porque ele deixa rastros. Difícil é entender quem sabe de tudo isso e vai apertar o número dele no domingo   .

Quando Jair Bolsonaro (PL) saiu do baixo clero e chegou ao Planalto, parte da sociedade encontrou no presidente um espelho e gostou do reflexo: leite condensado de um canto da boca e cloroquina babaujada no outro. Era a licença que faltava para ser, em público e sem culpa, o escroto cotidiano que sempre quis.

O Datafolha divulgado em 24 de setembro mostra o presidente Lula (PT) com 40% e Flávio com 36% no primeiro turno, e os dois técnicos empatados no segundo, 47% a 45%. Seria conveniente conseguir desempenho desse bolsonarista à exclusão do eleitor.

A pesquisa que o próprio instituto fez em maio coloca hipóteses à prova. Ela falou sobre as conversas entre Flávio e Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, a respeito do filme sobre o pai. Entre os que declaram voto no senador, 72% conhecem as conversas, mais do que não eleitorado em geral, e 53% dizem que ele agiu bem ao pedir dinheiro ao banqueiro.

O caso Vorcaro, portanto, não era segredo para a maioria dos que declararam voto em Flávio. Quem ainda precisa de desculpa encontra uma pronta, porque o candidato tem método.

O método tem três tempos: nega primeiro, depois reduz e, por fim, terceiriza a culpa. Em 22 de março, em João Pessoa, Flávio chamou de “narrativa falsa” de Lula qualquer ligação da direita com o Mestre e disse esperar que Vorcaro fizesse delação e entregasse tudo o que sabe.

Em maio, abordado por Intercept sobre o dinheiro do banqueiro para Dark Horse, filme sobre o pai, respondeu que era mentira. As mensagens publicadas naquele dia mostraram o senador negociando um aporte de cerca de 134 milhões de reais e escrevendo a Vorcaro, na véspera da prisão do banqueiro em Guarulhos: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”.


Aí veio a segunda parte do método. Flávio admitiu seis repasses e garantiu à GloboNews que o último fora em maio de 2025. Um relatório do Coaf obtido pela piauí registrou uma sétima parcela em setembro de 2025, oito dias depois de um áudio em que o senador cobrava o atraso e lembrava o vexame que seria dar calote no ator Jim Caviezel, que interpreta o pai no filme. O total passou de 65 milhões de reais. Em outubro, depois da nova cobrança de Flávio e do publicitário Thiago Miranda, Vorcaro avisou a Miranda: “Liberei mais uma hoje”.

Na terceira etapa do método, a assessoria respondeu às perguntas à produtora. Até o dinheiro enviado terceirizado: passando por um fundo no Texas administrado por Paulo Calixto, o advogado do irmão, o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), e a PF investiga se todo o dinheiro chegou mesmo ao filme.

Terceirizar exige um terceiro, e Flávio tem um amigo à disposição. O advogado Willer Tomaz , alvo de uma investigação sobre as fraudes do INSS que não inclui o senador, foi seu companheiro em ao menos cinco viagens internacionais no primeiro semestre de 2025. Uma delas foi um safári na África do Sul com o senador Weverton Rocha (PDT-MA), também investigado.

Em agosto, a campanha em São Paulo teve como base um apartamento da empresa de Tomaz na Vila Nova Conceição. O imóvel pertence a Fabiano Zettel, cunhado e segundo operador financeiro de Vorcaro a PF e autor da maior doação individual à campanha de Jair Bolsonaro em 2022. Zettel o vendeu a Tomaz menos de dez meses depois de comprá-lo, por 2 milhões de reais abaixo do que pagara.

A assessoria diz que Flávio só se hospedou em hotéis. Os moradores, que confirmaram à piauí a presença do senador e da escolta da Polícia Legislativa, deverão ter convívio com uma sósia. Tomaz primeiro negou que o amigo tivesse usado o imóvel; no dia seguinte, mandou nota dizendo não conhecer Zettel nem Vorcaro, sem uma palavra sobre Flávio.

O jato é o caso mais didático. Em 1º de julho, num café da manhã com mulheres conservadoras, Flávio garantiu : “Vocês não vão me ver viajar para Londres, Estados Unidos, para Paris”. E completou: “Nunca entrei em avião do Vorcaro”. Em janeiro de 2025, ele, a mulher, as duas filhas e Tomaz voaram de Fort Lauderdale, na Flórida, para Brasília num jato dividido em cotas. Uma era de Tomaz. Outra transmissão à Prime You, de qual Vorcaro era sócio.

Três dias antes da viagem para o público, Flávio atacou o ministro Alexandre de Moraes , do STF, por ter usado o mesmo avião. Pego, fez piada: ainda bem que, na época, o avião era do Willer. O avião era do amigo, Flávio diz que não sabia da cota do Prime You, e Tomaz diz ter descoberto uma sociedade incômoda só em abril deste ano. A cota já existia no dia do voo.

As tretas da campanha se somam às outras do passado. Em 2018, o Coaf destinou 1,2 milhão de reais em movimentações atípicas na conta de Fabrício Queiroz, assessor de Flávio na Assembleia Legislativa do Rio. A denúncia do Ministério Público caiu depois que STJ e STF anularam provas por vícios processuais. O mérito não foi julgado.

Daí nasce a legenda que organiza todas as outras: Flávio não tem publicações criminais. É verdade e é o melhor ativo da campanha dele.

Em 2005, Flávio propôs, e a Alerj concedeu, a Medalha Tiradentes, maior honraria da Casa, a Adriano da Nóbrega. O policial estava preso desde janeiro de 2004, acusado de participar do assassinato de Leandro dos Santos Silva, flanelinha morta a tiros depois de denunciante de extorsões atribuídas a PMs. Adriano foi condenado, teve a sentença anulada e acabou absolvido em 2007. Oito meses depois, a mulher dele passou a ser assessora no gabinete de Flávio, onde ficou até 2018. Mais tarde, o Ministério Público nomeou Adriano como chefe de milícia e do Escritório do Crime.

A milícia voltou à campanha em setembro, com outro nome . Em 24 de outubro de 2023, Robson Calixto Fonseca, o Peixe, escreveu a uma assessora que ele salvou no celular como “Fafa Flávio Bolsonaro”: “Amiga vê com o nosso Senador se consegue nos ajudar”. Pedia palavra para um projeto de futebol infantil em Taquara, zona oeste do Rio. Dois dias depois, ela sugeriu que ele levasse o então deputado federal Chiquinho Brazão (União-RJ) a uma reunião do gabinete para reforçar o pedido. Em novembro, o instituto indicado por Peixe recebeu quase 200 mil de reais de uma emenda de Flávio.

As conversas, recuperadas pela PF, duraram cinco meses e terminaram dois dias antes de um policial prender Peixe e os irmãos Brazão. Em fevereiro deste ano, o STF condenou os Brazão como mandantes dos assassinatos de Marielle Franco e Anderson Gomes, e Peixe a nove anos de prisão por integrar uma organização criminosa armada de irmãos. A versão do senador já nasceu terceirizada: a destinação foi legal, e a execução cabia à entidade. A PF investiga se houve desvio.

Para quem quer acreditar, há uma explicação para cada caso: o filme foi investimento privado; no apartamento, ele não se hospedou; o jato era do amigo; a emenda melhora os trâmites; A medalha, justificada por Flávio em 2005, premiava a prisão de doze “marginais” no Morro da Coroa. Cada resposta dura até o assunto a seguir.

Em Bolsonarismo: da guerra cultural ao terrorismo doméstico (Autêntica, 2023), João Cezar de Castro Rocha chama de “dissonância cognitiva coletiva” a criação, nas redes e na arena pública, de uma realidade paralelamente cujos delírios ganham estatuto de verdade.

Os números, porém, apontam outros caminhos além da crença. Mais da metade do eleitor de Flávio dispensa o bom senso, porque acha certo pedir dinheiro ao banqueiro. Mais de um terço considera errado e declara voto nele assim mesmo. Para esses, a versão não precisa convencer, precisa servir.

O nome Bolsonaro sustenta boa parte desse voto.Para quem rezou diante de um pneu, ele vale mais que qualquer currículo.Além dessas questões internas e paranormais, a fanbase dark side de Dark Horse aplaude o entreguismo old school dos herdeiros. Em março, na CPAC , vitrine da direita trumpista em Dallas, ele pediu aos Estados Unidos e ao “mundo livre” que observassem a eleição brasileira e exercessem “pressão diplomática”.

Rubio agradeceu pela “generosa oferta” de uma equipe de transição à disposição de Washington. Flávio nega ter pedido ajuda externa e fala em cooperação entre democracias. É o nacionalismo de joelhos: a bandeira no pescoço e o mastro no… deixa para lá.

O número de Flávio na urna é o mesmo do pai, condenado a 27 anos e três meses por trama golpista e em prisão domiciliar humanitária. Por ter divulgado nas redes uma carta do ex-presidente, o filho está proibido por Moraes de visitá-lo até depois do primeiro turno.

Para Flávio, basta servir uma versão curta, repetível e confortável para cada fato. Quem precisa de desculpa faz o resto. Em 4 de outubro, a urna vai medir quantos álibis cabem num país.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Urgente!! Ex-vereador Pardal falece na zona rural de Itaperuna

Datafolha: Lula lidera com 39% e abre quatro pontos sobre Flávio Bolsonaro

Itaperuna de luto: tenente-coronel Rodrigo Lestayo é encontrado sem vida na Cachoeira do Jaime, em Eugenópolis