Brasil e China aproximam sistemas de pagamento e chineses poderão usar Pix por QR Code

 

Projeto-piloto conecta o Pix à rede UnionPay e permite que usuários chineses paguem em estabelecimentos brasileiros diretamente por aplicativos de seus bancos.

Brasil e China deram mais um passo na integração de seus sistemas financeiros com o início de um projeto-piloto que conecta o Pix à rede chinesa UnionPay International. A iniciativa permite que turistas e visitantes chineses utilizem aplicativos bancários de seu país para pagar compras em estabelecimentos brasileiros habilitados, por meio da leitura de um QR Code. O comerciante brasileiro recebe normalmente em reais, enquanto o consumidor utiliza sua conta bancária na China.

A novidade tem uma importância que vai além da comodidade para turistas. Segundo as informações divulgadas sobre o projeto, a operação cria um canal de pagamentos transfronteiriços entre Brasil e China e reduz a necessidade de cartões internacionais ou dinheiro em espécie. É importante, porém, fazer uma distinção: os chineses não passarão a “operar o Pix” diretamente. O sistema continua sendo uma infraestrutura brasileira criada e administrada pelo Banco Central; a conexão ocorre por meio da UnionPay e de instituições financeiras chinesas integradas à plataforma. (Continua após a publicidade).

O movimento ganha ainda mais relevância porque ocorre em um momento de transformação do sistema monetário internacional. Durante décadas, o dólar ocupou posição central nas reservas internacionais, no financiamento e nos pagamentos globais. Essa predominância continua enorme: no primeiro trimestre de 2026, o dólar representava 57,13% das reservas cambiais oficiais, segundo o FMI. O renminbi chinês, por sua vez, ainda tinha participação muito menor, mas vem ampliando gradualmente sua presença internacional.

É nesse ponto que entra o conceito de desdolarização. O acordo Brasil-China não elimina o dólar e tampouco significa que o comércio bilateral deixará imediatamente de utilizar a moeda americana. Seu impacto potencial está em criar infraestruturas alternativas de pagamento. Quanto mais países conseguem realizar operações internacionais diretamente por suas próprias redes financeiras, menor é a necessidade de passar por intermediários e sistemas denominados em dólar em determinadas transações. O próprio FMI reconhece que o renminbi apresenta sinais de maior integração internacional, embora ainda parta de uma base bastante inferior à do dólar.

Para o Brasil, a aproximação pode representar ganhos econômicos importantes. A China é um dos principais parceiros comerciais brasileiros, e mecanismos de pagamento mais diretos podem reduzir custos de transação, facilitar o turismo, estimular o comércio eletrônico e abrir espaço para uma maior utilização de moedas locais. O avanço também fortalece a capacidade brasileira de negociar com diferentes polos econômicos sem depender exclusivamente da infraestrutura financeira dominada pelos Estados Unidos. (Continua após a publicidade).

Para Pequim, o interesse é igualmente estratégico. A China vem há anos tentando ampliar a internacionalização do yuan e construir alternativas aos canais financeiros tradicionalmente dominados pelos Estados Unidos. A expansão de redes de pagamento chinesas, como a UnionPay, faz parte desse processo. Em julho, por exemplo, um banco angolano anunciou planos de adesão ao sistema chinês CIPS para atender à crescente demanda por liquidações diretamente em yuan, movimento associado à expansão dos negócios entre a China e economias emergentes.

A dimensão geopolítica, portanto, talvez seja ainda mais importante que o impacto imediato sobre o bolso do consumidor. Quem controla as infraestruturas de pagamentos possui também uma parcela relevante do poder econômico internacional. O sistema financeiro global permite que grandes potências exerçam influência por meio de sanções, restrições de acesso, custos de transação e controle de canais financeiros. A criação de alternativas não significa necessariamente substituir o sistema americano, mas pode reduzir a dependência de determinados países em relação a ele.

Nesse cenário, o Pix começa a adquirir uma dimensão de soft power tecnológico brasileiro. Criado em 2020, o sistema tornou-se uma das principais infraestruturas de pagamentos instantâneos do país e vem sendo utilizado como referência internacional. Em março de 2026, o Banco do Brasil já havia lançado uma solução que permitia a brasileiros fazerem pagamentos na Argentina utilizando Pix e QR Code, mostrando que a internacionalização do sistema começou a sair do campo das discussões para aplicações concretas.

A tendência pode ganhar força se outros países passarem a conectar suas redes de pagamentos instantâneos. Nesse caso, o mundo poderia caminhar para um sistema mais fragmentado, no qual diferentes moedas e plataformas conversariam diretamente entre si. Em vez de uma única infraestrutura global, haveria uma espécie de “rede de redes”, com Brasil, China, Índia, países do Sudeste Asiático e outras economias emergentes ampliando seus mecanismos de liquidação bilateral.

Isso não significa, contudo, que o dólar esteja próximo de perder sua posição dominante. A moeda americana continua muito à frente de seus concorrentes em reservas internacionais, mercados financeiros, liquidez e capacidade de financiamento. O próprio FMI afirma que o dólar permanece central no sistema monetário internacional e continua dominante em comércio, reservas, empréstimos internacionais e pagamentos globais.

O que pode estar mudando é algo mais gradual: o mundo caminha para uma diversificação das opções monetárias e financeiras. Em vez de uma desdolarização abrupta, pode ocorrer uma redução progressiva da necessidade do dólar em determinados corredores comerciais. Brasil e China são especialmente relevantes nesse processo porque representam duas grandes economias emergentes, integrantes dos BRICS e com forte volume de comércio bilateral.

Para o Brasil, entretanto, existe uma questão estratégica delicada. Diversificar os meios de pagamento pode aumentar a autonomia econômica brasileira, mas também exige equilíbrio diplomático. A aproximação com a China não precisa significar afastamento dos Estados Unidos, assim como utilizar o dólar não significa abrir mão de soberania. O maior ganho para Brasília pode justamente estar na capacidade de negociar com diferentes centros de poder sem ficar excessivamente dependente de nenhum deles.

O acordo, portanto, deve ser observado menos como o anúncio do “fim do dólar” e mais como mais uma peça na construção de uma nova arquitetura financeira internacional. Se a integração entre Pix, UnionPay e outros sistemas evoluir, o Brasil poderá transformar uma tecnologia criada para facilitar pagamentos domésticos em uma ferramenta de integração econômica internacional. E, em um mundo marcado por guerras comerciais, sanções e crescente disputa entre Estados Unidos e China, controlar e conectar sistemas de pagamento tornou-se também uma questão de poder geopolítico.

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