Golpe do falso advogado cresce em Itaperuna e acende alerta para clientes de processos judiciais
A transformação digital revolucionou a forma como a sociedade se comunica, realiza transações financeiras e acessa serviços públicos. No Poder Judiciário, a implantação dos processos eletrônicos trouxe mais agilidade, transparência e economia. Entretanto, a mesma tecnologia que facilitou o acesso à Justiça também abriu espaço para uma nova geração de crimes cibernéticos. A cada dia, criminosos desenvolvem golpes mais sofisticados, explorando a confiança das vítimas e utilizando informações disponíveis na internet para aplicar fraudes cada vez mais convincentes.
Entre os golpes que mais têm se espalhado nos últimos anos está o chamado "golpe do falso advogado". A prática consiste em criminosos que se passam pelo advogado responsável por uma ação judicial para enganar clientes e obter transferências bancárias indevidas. Aproveitando a facilidade de acesso a informações processuais públicas, os golpistas conseguem montar abordagens altamente detalhadas, aumentando significativamente as chances de convencer a vítima.
Um caso recente chamou a atenção em Itaperuna, no Noroeste Fluminense. A advogada Drª Gisely Azevedo foi procurada por uma cliente que estranhou uma mensagem recebida por WhatsApp informando sobre uma suposta movimentação em seu processo. A cliente desconfiou porque a ação judicial havia sido encerrada há mais de um ano. Ao entrar em contato diretamente com sua advogada, confirmou que se tratava de uma tentativa de golpe, evitando um possível prejuízo financeiro.
O funcionamento da fraude é relativamente simples. Como grande parte dos processos judiciais brasileiros tramita de forma eletrônica e, por força da legislação, muitos deles possuem consulta pública, qualquer pessoa pode visualizar dados como o nome das partes, número do processo, advogado constituído, natureza da ação e movimentações processuais. Com essas informações em mãos, os criminosos entram em contato com os clientes por telefone ou aplicativos de mensagens, principalmente o WhatsApp, utilizando fotos de perfil semelhantes às dos escritórios de advocacia e linguagem técnica para transmitir credibilidade.
Durante a conversa, os golpistas informam falsamente que o processo teve uma decisão favorável ou que um valor foi liberado para pagamento. Para tornar a fraude ainda mais convincente, encaminham documentos falsificados, como supostas sentenças judiciais, alvarás de levantamento, comprovantes de depósito e decisões assinadas com logotipos do Poder Judiciário. Em seguida, alegam que é necessário realizar o pagamento de custas processuais, impostos, taxas cartorárias ou honorários complementares para que o dinheiro seja liberado.
O objetivo é sempre o mesmo: convencer a vítima a realizar uma transferência via PIX ou outro meio eletrônico para contas bancárias controladas pelos criminosos. Em muitos casos, a urgência é utilizada como ferramenta de pressão. Os estelionatários afirmam que o pagamento precisa ser feito imediatamente para evitar a perda do valor supostamente conquistado na ação judicial.
Situações como essa têm se tornado cada vez mais frequentes em diversas regiões do país. A utilização de inteligência artificial, edição de documentos e engenharia social permite que os criminosos reproduzam com fidelidade comunicações oficiais, dificultando a identificação da fraude por pessoas que não estão familiarizadas com o funcionamento do sistema judicial. Advogados e a própria Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) têm alertado constantemente para esse tipo de crime, que já fez inúmeras vítimas.
Especialistas em segurança digital explicam que nenhuma informação pública de um processo autoriza terceiros a solicitar pagamentos inesperados por aplicativos de mensagens. Da mesma forma, transferências exigidas de forma urgente ou condicionadas à liberação de valores judiciais devem ser vistas com extrema desconfiança. Em praticamente todos os casos, qualquer cobrança legítima é previamente esclarecida pelo advogado responsável e pode ser confirmada diretamente com o escritório.
Para reduzir os riscos de cair nesse tipo de golpe, a principal recomendação é sempre confirmar qualquer informação utilizando os canais oficiais do advogado ou do escritório de advocacia. Nunca faça pagamentos apenas com base em mensagens recebidas por WhatsApp, especialmente quando houver pedidos de urgência. Também é importante verificar se o número de telefone realmente pertence ao profissional, desconfiar de documentos enviados sem solicitação, consultar a movimentação processual diretamente nos sistemas dos tribunais e jamais compartilhar dados pessoais ou bancários com desconhecidos.
A digitalização da Justiça representa um avanço importante para toda a sociedade, mas exige que cidadãos e profissionais redobrem a atenção diante dos riscos do ambiente virtual. A informação continua sendo a principal ferramenta de prevenção. Desconfiar de abordagens inesperadas, confirmar qualquer solicitação diretamente com o advogado e evitar decisões precipitadas podem ser atitudes suficientes para impedir que um processo judicial, que deveria representar a busca por um direito, termine se transformando em um prejuízo causado por criminosos especializados em fraudes digitais.



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